Quando resolvemos vir para o Japão, na verdade não sabíamos exatamente o que iríamos encontrar. Sabíamos para onde estávamos indo, mas não tínhamos muita noção de como seria a vida naquele lugar.
A imagem que tínhamos do Japão era principalmente aquela que víamos pela televisão. Acabamos vindo morar em Shirakawa-go, no interior da província de Gifu, e o que encontramos foi algo totalmente diferente do que imaginávamos — e, para nossa surpresa, foi uma experiência muito boa.
Também não imaginávamos que, 34 anos depois, ainda estaríamos vivendo no Japão. Nosso plano inicial era ficar apenas três anos e depois voltar ao Brasil.
Os três anos passaram. O plano de voltar ficou no passado, e o Japão acabou se tornando nossa casa.
Minha chegada ao Japão
Minha viagem começou no dia 27 de setembro. Fizemos o check-in no Aeroporto de Cumbica por volta das nove da noite e o voo partiu já na madrugada do dia 28, entre meia-noite e duas horas da manhã.
Depois de cerca de 11 horas de voo, fizemos uma escala de aproximadamente duas horas em Los Angeles. Em seguida, foram mais cerca de 11 horas de viagem até o Japão.
Desembarcamos em Nagoya durante a tarde do dia 29. Depois de passar pela imigração, retirar as bagagens e cumprir os demais procedimentos de entrada no país, o pessoal da empresa que havia me contratado estava nos esperando.
Seguimos de van para Shirakawa. Naquela época, o trajeto não contava com as mesmas vias expressas que existem hoje e fizemos a viagem pelas estradas comuns. Foram pelo menos mais três horas de estrada.
Quando finalmente chegamos, o sol já estava se pondo. Devia ser por volta das sete da noite.
Fui apresentado ao presidente da empresa e à esposa dele e conheci a casa que haviam preparado para nós.
Eu estava cansado. Além da longa viagem, havia toda a correria e os preparativos dos dias anteriores. Imaginava que teria pelo menos algum tempo para descansar e me recuperar.
Não foi bem assim.
Assim que cheguei, o presidente me avisou:
— Você começa a trabalhar amanhã às oito da manhã.
E assim começou minha vida no Japão.
Uma viagem sem fotografias
Pensando hoje naquela viagem, uma coisa me chama a atenção: eu não tenho nenhuma fotografia daquele momento.
Não tenho fotos da saída de casa, da ida para o aeroporto, da despedida, do embarque ou da chegada ao Japão. Talvez alguém que estivesse conosco tenha tirado alguma foto, mas nós não tiramos.
Hoje isso parece quase inimaginável.
Há 34 anos, pelo menos na realidade em que eu vivia no Brasil, não era comum andar com uma máquina fotográfica para registrar todos os momentos da vida. A fotografia ainda dependia de uma câmera e de um filme que depois precisava ser revelado.
Quando chegamos ao Japão, passei a usar aquelas pequenas câmeras com filme que eram muito comuns naquela época. Era possível comprá-las até nas lojas de conveniência. Normalmente tinham 24 ou 36 poses e você simplesmente comprava a câmera e saía fotografando.
Tenho algumas fotos daquela fase e ainda preciso procurar onde estão guardadas.
Mas daquele dia específico, da viagem que me trouxe do Brasil e da minha chegada ao Japão, não tenho nenhuma imagem.
É uma daquelas coisas do passado que não podemos recuperar.
E talvez isso seja tão difícil de imaginar hoje justamente porque carregamos um telefone no bolso o tempo todo. Podemos fotografar praticamente qualquer coisa, a qualquer momento, olhar a imagem imediatamente e guardar milhares delas.
Em 1992, não era assim.

O Japão onde fui morar
Quando se fala em morar no Japão, acho que a primeira imagem que vem à cabeça de muita gente é Tóquio, Osaka ou alguma outra cidade conhecida. Talvez Kyoto, com seus templos e aquela imagem mais tradicional do Japão.
Comigo foi bem diferente.
Nós fomos morar em Shirakawa-go, no interior da província de Gifu, em uma região cercada por montanhas e bastante afastada dos grandes centros.
E talvez justamente por isso minha experiência tenha sido tão interessante.
Apesar de estar chegando a um lugar completamente diferente daquele onde havia vivido no Brasil, não me lembro de ter sentido aquele isolamento que alguém poderia imaginar.
Muito pelo contrário.
Desde os primeiros dias, eu me senti praticamente em casa. As pessoas nos receberam muito bem, eram receptivas e nos tratavam com muita consideração.
É difícil explicar essa sensação depois de tantos anos, mas não me lembro de ter pensado: “Onde é que eu vim parar?”
Eu estava em outro país, do outro lado do mundo, em uma pequena localidade entre as montanhas, mas não me sentia como se estivesse em um lugar estranho.
E aquela região acabaria sendo minha casa por quase 11 anos.

Os primeiros dias em Shirakawa
Os primeiros dias no Japão ficaram na minha memória de uma maneira muito interessante. Apesar de estar trabalhando em obras, muitas vezes na rua e nas estradas, eu estava gostando daquela nova vida e me adaptei muito bem ao lugar.
Durante o trabalho, o dia passava rápido. Normalmente chegávamos de volta por volta das seis da tarde e havia uma vantagem: nossa casa ficava praticamente ao lado da empresa. Do galpão até em casa não dava nem um minuto andando.
Então, terminávamos o serviço e praticamente já estávamos em casa, tomando banho e descansando.
O curioso é que parecia que a noite não acabava.
Naquela época morávamos juntos eu, minha esposa, minha filha, meu sogro e dois tios da minha esposa. Depois do trabalho ficávamos em casa conversando, e tenho uma lembrança muito boa daqueles momentos.
Às vezes, depois de bastante conversa, olhávamos para o relógio:
— Nossa, ainda são oito horas?
Passava mais um tempo:
— Ainda são nove?
Talvez fosse porque tudo era novo para nós. Não sei. Mas tenho muito viva essa sensação de que havia tempo para tudo.
Apesar do trabalho durante o dia, não guardo daqueles primeiros tempos uma lembrança de uma rotina estafante. Pelo contrário.
Foi um período muito bom da nossa vida. Gostamos muito de morar em Shirakawa.
Naqueles primeiros dias eu não poderia imaginar que Shirakawa seria minha casa por quase 11 anos e que, mais de três décadas depois, eu continuaria vivendo no Japão.
Muita coisa aconteceu desde então. O Japão mudou, a vida dos brasileiros aqui mudou e, naturalmente, minha própria vida também mudou.
Algumas dessas histórias eu pretendo contar aos poucos neste blog — não apenas sobre o Japão que existe hoje, mas também sobre um Japão que conheci e que, em muitos aspectos, já não existe mais.