Nossa família em Hirase: uma história que começou em 1992

Em Hirase, uma pequena localidade de cerca de 200 habitantes, nossa família cresceu, criou vínculos e encontrou seu primeiro lar no Japão. Esta é a história de quase 34 anos de ligação com Shirakawa.
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Quando chegamos ao Japão, em 1992, fomos morar em Hirase, uma pequena localidade pertencente à vila de Shirakawa, na província de Gifu.

Naquela época, nunca tínhamos ouvido falar em Shirakawa-go. Não sabíamos que estávamos chegando a um lugar que, poucos anos depois, seria conhecido internacionalmente. Em 1995, três anos após nossa chegada, as aldeias históricas de Shirakawa-go e Gokayama foram reconhecidas como Patrimônio Mundial pela UNESCO.

Nós estávamos lá quando isso aconteceu.

Hirase ficava afastada do povoado histórico principal de Ogimachi, a aproximadamente 15 minutos de carro. Enquanto Shirakawa tinha por volta de 1.920 habitantes, segundo os números divulgados pela prefeitura na época, Hirase tinha cerca de 200 moradores — incluindo nós, os estrangeiros que viviam ali.

Era uma realidade muito diferente daquela encontrada pela maioria dos brasileiros que ia trabalhar no Japão. Muitos seguiam para cidades maiores, com grandes fábricas e centros industriais. Nós fomos para o interior, para uma pequena comunidade cercada pelas montanhas.

Não havia grandes indústrias nem muitas opções de comércio ou lazer. Fomos trabalhar em uma construtora que realizava obras para o governo.

Ilustração baseada em fotografia do acervo familiar.

Nossa família no início da vida em Hirase

No início, éramos seis pessoas: eu, minha esposa, nossa filha, o pai dela e dois irmãos dele.

A empresa que nos recebeu nunca havia trabalhado com estrangeiros. Éramos os primeiros, e eles também não sabiam exatamente como seria aquela experiência.

Como pertencíamos à mesma família, inicialmente imaginaram que todos poderíamos morar juntos. A empresa construiu uma casa nova especialmente para nós. Era uma casa grande, com quatro quartos.

No começo, morávamos ali eu, minha esposa, nossa filha, meu sogro e os dois irmãos dele. Mais tarde, os tios alugaram casas nas proximidades para trazer suas esposas e seus filhos.

O custo da moradia era muito baixo em comparação com o que se pagava em cidades maiores. O aluguel da casa nova onde morávamos era de 15 mil ienes por mês. Alguns parentes encontraram imóveis ainda mais baratos, já existentes na localidade.

Esse foi um dos benefícios de viver em uma região rural. Hirase oferecia poucas opções de trabalho e lazer, mas o custo de vida era menor e havia uma proximidade entre as pessoas que dificilmente encontraríamos em uma cidade grande.

De seis para cerca de 33 pessoas

Com o tempo, outros membros da família da minha esposa começaram a chegar.

Vieram as esposas e os filhos dos tios. Chegaram outros tios, uma irmã da minha esposa com o marido e os filhos e, posteriormente, também algumas primas com suas famílias.

Ao longo desse processo, passamos de seis para cerca de 33 pessoas da mesma família, incluindo as crianças.

Em uma localidade com aproximadamente 200 habitantes, isso representava uma parcela considerável da população. Nossa presença não passava despercebida. Uma parte significativa dos moradores de Hirase pertencia à mesma família brasileira.

Mesmo antes da chegada de todos os parentes, já nos sentíamos bem acolhidos. Hirase era uma comunidade pequena, e as pessoas nos tratavam muito bem. Aos poucos, passamos a nos sentir em casa.

Quando o restante da família chegou, essa sensação ficou ainda mais forte. Apesar de estarmos no Japão e ainda precisarmos nos adaptar ao idioma, à alimentação e aos costumes, a convivência com tantos parentes permitia que levássemos uma vida familiar parecida com a que tínhamos no Brasil.

Estávamos longe de nosso país, mas não estávamos sozinhos.

Seis crianças brasileiras em uma escola com 36 alunos

As crianças da família frequentavam a escola primária de Hirase — o shōgakkō, primeiro estágio do ensino obrigatório japonês.

A escola era muito pequena. Havia somente 36 alunos em toda a escola primária, e seis deles eram brasileiros.

Mais uma vez, nossa presença era bastante representativa. Uma em cada seis crianças daquela escola vinha de nossa família brasileira.

O que mais nos impressionou foi o esforço espontâneo da escola para integrar as crianças. Não fizemos uma exigência nem apresentamos um pedido formal. A própria escola percebeu que precisava ajudá-las a aprender japonês e a se adaptar.

Foi criada uma classe especial para acelerar o aprendizado do idioma. Nós a conhecíamos como “Classe Excelente”. A intenção era oferecer às crianças brasileiras um acompanhamento específico para que aprendessem japonês mais rapidamente e conseguissem acompanhar as aulas regulares.

A escola também trouxe um professor que havia vivido durante dois anos no Brasil. Por conhecer um pouco do país, da língua e da maneira de viver dos brasileiros, ele conseguia compreender melhor a situação das crianças.

Para uma escola tão pequena, em uma comunidade do interior, foi uma iniciativa que nos marcou profundamente. Eles não esperaram que surgisse um problema. Tomaram a iniciativa de tornar nossa permanência e a adaptação das crianças as melhores possíveis.

As confraternizações escolares também aproximavam pais, professores e alunos. Uma das fotografias que guardo, feita em 1993, registra uma dessas atividades. São imagens simples, mas mostram como a escola se tornou uma das principais portas de entrada de nossa família na comunidade japonesa.

Ilustração baseada em fotografia do acervo familiar.

Uma infância integrada à comunidade

Em 1995, várias crianças da família já viviam em Hirase. Na escola de Hirase, nossa filha cresceu convivendo com crianças japonesas e com os primos que também viviam na região.

As fotografias daquele período mostram as crianças brincando ao ar livre, participando de atividades, fazendo piqueniques e aproveitando a natureza de Shirakawa.

Para elas, aquela vida provavelmente parecia normal. Tinham os primos por perto, frequentavam a escola japonesa e aprendiam o idioma muito mais rapidamente que muitos adultos.

Hoje, quando observo essas fotografias, percebo como aquela infância foi singular. Eram crianças de uma família brasileira crescendo entre as montanhas de Gifu, convivendo diariamente com a cultura e a língua japonesas, mas mantendo dentro de casa os vínculos familiares e muitas referências do Brasil.

Elas estavam construindo uma experiência própria entre os dois países.

Os outros brasileiros que passaram por Hirase

Durante os anos em que vivemos em Hirase, além de nossa família, poucas famílias brasileiras moraram na localidade.

Lembro-me de um casal com uma filha que permaneceu por aproximadamente um ano. Outro casal, parente do primeiro, viveu ali com dois filhos durante cerca de três anos. Houve ainda uma terceira família, também um casal com uma criança, que ficou menos de um ano.

Essas famílias passaram algum tempo conosco, mas acabaram seguindo outros caminhos.

Quem criou uma ligação mais duradoura com Hirase foi a família da minha esposa. Alguns permaneceram durante muitos anos. Outros voltaram ao Brasil ou se mudaram para diferentes regiões do Japão.

Eu, minha esposa e nossa filha moramos ali por quase 11 anos. Um dos tios permaneceu aproximadamente 16 anos e depois se mudou para uma região próxima de onde moro atualmente. Mais tarde, ele também passou a trabalhar comigo.

Outro tio continua vivendo em Hirase até hoje. Os filhos cresceram, casaram-se e saíram da localidade, mas ele permaneceu no mesmo lugar durante todo esse tempo — há quase 34 anos.

O inverno: a parte mais difícil

Nossa experiência em Shirakawa foi muito boa. A principal dificuldade era o inverno.

A província de Gifu possui regiões de planície e regiões montanhosas. Hirase fica na parte das montanhas, a cerca de 600 metros de altitude, onde a neve é intensa.

Durante o inverno, era comum haver um grande acúmulo de neve. Em muitos períodos, ela ultrapassava facilmente os 80 centímetros. Em dias excepcionais, podia cair uma quantidade impressionante em apenas um dia.

Para mim, que nasci em Pernambuco e cresci acostumado ao clima quente, viver e trabalhar naquele frio foi uma mudança enorme.

As temperaturas frequentemente se aproximavam de zero e, nos períodos mais frios, chegavam a vários graus negativos. Dentro das casas, tínhamos aquecedores. O mais difícil era sair, caminhar pelas ruas e trabalhar ao ar livre.

A neve fazia parte da beleza de Shirakawa, mas também tornava o cotidiano mais pesado. Era necessário limpar os acessos, dirigir com cuidado e organizar toda a rotina de acordo com as condições do inverno.

Essa foi praticamente a única parte de Shirakawa à qual nunca consegui me adaptar completamente. Em todos os outros aspectos, a experiência foi excelente.

A decisão de deixar Hirase

Depois de quase 11 anos, surgiu a oportunidade de comprarmos nossa própria casa.

Decidimos não comprar em Shirakawa justamente por causa do inverno rigoroso. Mudamo-nos para uma região mais próxima da parte central de Gifu, na planície.

A diferença geográfica era perceptível. Saímos de uma região a aproximadamente 600 metros de altitude e descemos para uma área próxima ao nível do mar. O clima era mais fácil, e a vida oferecia mais serviços e possibilidades.

Em compensação, as relações entre as pessoas eram diferentes.

Em Hirase, por ser uma comunidade pequena, tínhamos muito mais contato com os moradores. As pessoas nos conheciam, conversavam conosco e nos tratavam com proximidade. Nós nos sentíamos acolhidos e reconhecidos.

Em uma cidade maior, as relações são mais distantes. É possível morar perto de alguém durante anos e quase não ter contato, exceto durante alguma atividade da associação do bairro ou em ocasiões especiais.

Essa diferença me fez compreender o valor da experiência que tivemos no interior.

O melhor lugar para começar a conhecer o Japão

Quando chegamos, não conhecíamos Shirakawa. Não sabíamos que o lugar seria reconhecido pela UNESCO nem que nossa família criaria uma ligação tão profunda com aquela pequena comunidade.

Fomos para trabalhar e imaginávamos que aquela seria apenas uma etapa de nossa vida. No entanto, Hirase se tornou o lugar onde aprendemos a viver no Japão.

Foi ali que enfrentamos pela primeira vez o idioma, os costumes, o trabalho, a escola das crianças e o inverno. Foi também ali que recebemos o apoio de uma empresa sem experiência com estrangeiros, de uma escola disposta a integrar nossos filhos e de moradores que nos trataram como parte da comunidade.

A chegada dos parentes transformou uma pequena presença brasileira em uma grande rede familiar. As crianças cresceram juntas. Algumas pessoas ficaram poucos anos; outras permaneceram durante décadas.

Hoje, quase 34 anos depois de nossa chegada, um dos tios da minha esposa ainda vive em Hirase, no mesmo lugar onde essa história começou.

O inverno acabou nos levando para outra região, mas considero muito importante termos começado nossa vida japonesa em Shirakawa. Talvez uma cidade grande tivesse sido mais prática, mas dificilmente teria nos permitido conhecer o Japão da mesma maneira.

Hirase foi nosso primeiro lar neste país. E foi ali, em uma pequena comunidade de aproximadamente 200 habitantes, que nossa família começou a construir uma história que continua até hoje.