Antes de vir ao Japão, eu havia estudado japonês básico durante um ano e meio no Brasil. Fiz o curso em uma escola de línguas renomada e, por isso, imaginava que possuía uma base suficiente para começar a me comunicar.
Quando cheguei a Hirase, porém, percebi imediatamente que estava enganado.
O japonês que eu havia aprendido servia, no máximo, como uma base muito superficial para quem pretendia fazer turismo — e ainda assim levando um dicionário de viagem. Para uma conversa real, especialmente no ambiente de trabalho, aquele conhecimento praticamente não servia.
Descobri isso já no primeiro dia.

Quando percebi que não entendia nada
Ao chegarmos a Hirase, o shachō — o presidente da empresa — e sua esposa foram nos dar as boas-vindas.
Eu deveria estar preparado para ao menos cumprimentá-los e responder algumas perguntas simples. Afinal, havia estudado japonês durante um ano e meio.
Mas não entendi uma palavra sequer.
Também não consegui responder quase nada.
A maneira como as pessoas falavam era completamente diferente dos diálogos organizados e previsíveis que eu havia estudado. A velocidade, a pronúncia, as expressões e o contexto real faziam com que aquele japonês parecesse outro idioma.
Naquele momento, ficou evidente que terminar um curso não significava estar preparado para viver e trabalhar no Japão.
Uma realidade diferente daquela dos grandes centros
Muitos brasileiros que foram trabalhar em grandes centros industriais encontraram uma estrutura preparada para receber estrangeiros.
As empreiteiras disponibilizavam intérpretes, responsáveis pelo acompanhamento dos trabalhadores e grupos formados por vários brasileiros. Em algumas fábricas, era possível realizar o trabalho sem compreender praticamente nada de japonês, porque já existia toda uma logística organizada.
Em Shirakawa, nossa situação era completamente diferente.
A empresa nunca havia contratado estrangeiros. Nós éramos os primeiros, e não havia tradutor nem uma estrutura específica para nos orientar.
Eu geralmente trabalhava sozinho entre três ou mais japoneses. Precisava entender o que me diziam, quais ferramentas deveria buscar, onde deveria ir e como executar o serviço.
A falta do idioma passou a ser um grande obstáculo. Não se tratava apenas de conversar. Não compreender uma instrução no trabalho podia causar erros, atrasos e até situações perigosas.
O ultimato de um mês
Depois de aproximadamente um mês, o shachō me chamou ao escritório.
Meu sogro foi comigo para fazer a tradução. Foi nessa conversa que recebi uma notícia terrível: o grande problema era justamente eu não compreender japonês.
A empresa decidiu me dar mais um mês para mostrar que seria capaz de superar aquela dificuldade. Se eu não apresentasse nenhum resultado, infelizmente não poderia continuar trabalhando ali.
Minha situação era muito delicada.
Eu não havia ido sozinho para o Japão. Estava com minha esposa e minha filha e ainda carregava as dívidas da viagem, que eram muito altas naquela época.
Minha filha e minha esposa tinham visto de um ano e viajaram apenas com passagem de ida. As passagens custaram aproximadamente 200 mil e 250 mil ienes, respectivamente. No meu caso, como eu não era descendente de japoneses, viajei com visto de turista e precisei comprar passagem de ida e volta, que custou cerca de 350 mil ienes.
Além das passagens, existiam todas as outras despesas da mudança.
Eu tinha apenas 90 dias de permanência como turista e precisava resolver a obtenção de um visto de prazo mais longo. Perder o emprego naquele momento colocaria em risco todos os planos da família.
Não tinha muito tempo para lamentar. Precisava encontrar uma solução.

A estratégia que criei para aprender
A partir daquele dia, comecei a estudar de uma maneira completamente diferente.
Em vez de tentar aprender o idioma de forma ampla, passei a me concentrar nas palavras e frases que provavelmente usaria no trabalho no dia seguinte.
Eu observava o tipo de serviço que estávamos realizando e tentava prever:
- quais ordens poderia receber;
- quais ferramentas seriam necessárias;
- quais perguntas poderiam me fazer;
- como deveria confirmar uma instrução;
- e quais respostas precisaria dar.
Também passei a prestar muita atenção à rotina do trabalho. Mesmo quando não entendia todas as palavras, procurava compreender a situação, observar os movimentos dos colegas e antecipar o que deveria fazer.
Essa estratégia ajudava a evitar erros de interpretação.
Decidi ainda que, quando o prazo terminasse e eu fosse conversar novamente com o patrão, iria sozinho. Não levaria meu sogro nem outro tradutor.
Em apenas um mês, meu conhecimento real do idioma ainda não havia avançado tanto. Seria impossível alcançar fluência naquele período. Mas eu estava aprendendo a usar aquilo que sabia de maneira mais eficiente.
Preparei um verdadeiro arsenal de frases para a reunião. Também pensei em como conduzir a conversa para assuntos nos quais o shachō provavelmente usaria palavras que eu conseguiria compreender.
Não se tratava de fingir que eu falava japonês perfeitamente. Eu queria mostrar que estava me esforçando, que havia desenvolvido uma estratégia e que já conseguia me comunicar melhor do que um mês antes.
A estratégia funcionou.
Ao final da conversa, o shachō estava satisfeito. Disse que eu teria lugar na empresa durante o tempo que quisesse trabalhar ali.
E assim aconteceu: permaneci naquela empresa por quase 11 anos.
De problema a responsável pelos estrangeiros
A empresa que inicialmente considerava minha falta de japonês um problema passou, com o tempo, a confiar a mim os assuntos relacionados à permanência dos estrangeiros.
Compreendi essa mudança claramente no dia em que fui renovar meu visto.
Fomos até a imigração em Nagoya. O funcionário da empresa que nos acompanhou era o mesmo senhor que havia ido nos buscar no aeroporto quando chegamos. Meu sogro também foi conosco para ajudar com o japonês.
Quando chegamos, porém, nenhum dos dois soube exatamente como conduzir o processo.
Na imigração havia uma funcionária responsável pelo atendimento e pela tradução em português. Conversei diretamente com ela, tirei todas as minhas dúvidas e descobri quais documentos precisaria providenciar.
A partir do ano seguinte, passei a resolver sozinho os assuntos relacionados ao meu visto. Depois, a empresa também começou a pedir que eu cuidasse dos procedimentos dos outros estrangeiros.
Certa vez, perguntei à esposa do shachō — que, na prática, exercia uma grande autoridade dentro da empresa — por que eles pediam que eu cuidasse até mesmo dos assuntos do meu sogro, que falava japonês perfeitamente.
Ela me respondeu que, embora meu japonês ainda não fosse perfeito, era muito mais prático conversar comigo.
Essa resposta me ensinou algo importante.
Fluência não é tudo
Conhecer um idioma é fundamental, mas a fluência, sozinha, não resolve todas as situações.
Também é preciso saber ouvir, entender o contexto, identificar o problema, fazer as perguntas certas e procurar uma solução.
Meu sogro dominava o japonês muito melhor do que eu. Entretanto, diante de um procedimento burocrático novo, compreender as palavras não era suficiente. Era necessário investigar, perguntar, reunir os documentos e acompanhar o processo até o fim.
Foi assim que percebi que a comunicação não depende apenas da quantidade de palavras que uma pessoa conhece.
Uma pessoa com japonês ainda imperfeito pode se destacar quando demonstra:
- iniciativa;
- responsabilidade;
- atenção ao contexto;
- disposição para perguntar;
- capacidade de organizar informações;
- e compromisso em resolver o problema.
O idioma abre a porta. A maneira como utilizamos esse conhecimento determina o caminho que poderemos seguir.
A mesma experiência em outra empresa
Anos depois, essa lição se repetiu na empresa onde trabalho atualmente há cerca de 20 anos.
Quando cheguei, já havia um grupo de aproximadamente 15 brasileiros no setor. Alguns trabalhavam ali havia mais de dez anos e dominavam a rotina do ambiente.
No dia da entrevista, conversei diretamente com o shachō, que atualmente ocupa o cargo de kaichō, presidente do conselho da empresa. Fui sozinho, sem intérprete e sem levar dicionário.
Somente depois soube que isso o havia impressionado.
Os dois brasileiros responsáveis pelo setor tinham muita experiência no trabalho. Porém, sempre que precisavam conversar com o shachō, levavam um enorme dicionário japonês-português, tão grosso que parecia uma Bíblia.
O shachō realizava reuniões semanais com esses dois responsáveis para conversar sobre o andamento do setor. Muitas vezes, as reuniões aconteciam em bons restaurantes. Nós jantávamos, conversávamos e bebíamos; depois, havia até um serviço para levar cada participante e seu carro de volta para casa.
Logo na reunião seguinte à minha entrada na empresa, o shachō pediu que eu também participasse.
Minha capacidade de conversar diretamente com ele e compreender os assuntos do trabalho fez com que novas oportunidades surgissem rapidamente.
Em menos de dois anos, tornei-me responsável pelo setor.
Passei a ser seishain, funcionário efetivo. Depois, fui promovido a shunin, uma função de supervisão, e posteriormente a kakarichō, chefe de seção.
Enquanto isso, alguns brasileiros que estavam na empresa havia mais tempo permaneceram como keiyaku shain, funcionários contratados.
Isso não significa que eu fosse mais competente em todas as áreas nem que meu japonês fosse perfeito. A diferença foi que o idioma me permitiu conversar diretamente com a direção, participar das reuniões, compreender o que a empresa esperava e assumir responsabilidades que iam além do serviço básico.
O idioma cria independência
É possível viver durante muitos anos no Japão sem aprender japonês, principalmente quando se trabalha e convive apenas com brasileiros.
Existem pessoas que sempre dependem de intérpretes, amigos, parentes ou colegas para resolver qualquer assunto. Isso pode funcionar durante algum tempo, mas também limita profundamente sua independência.
Sem o idioma, a pessoa pode ter dificuldade para:
- compreender seus direitos e deveres;
- resolver questões de visto;
- conversar com médicos;
- acompanhar a educação dos filhos;
- entender contratos;
- procurar melhores empregos;
- negociar diretamente com superiores;
- e participar de decisões importantes.
Além disso, sempre existe o risco de receber apenas a interpretação de outra pessoa, sem saber exatamente o que foi dito.
Aprender japonês não elimina todos os problemas. Também não garante automaticamente uma promoção ou uma carreira de sucesso. Mas aumenta muito as possibilidades.
O idioma permite que você se apresente por conta própria e seja avaliado pelo que realmente pensa e faz, não apenas pelo que outra pessoa consegue traduzir.
Não espere aprender perfeitamente para começar a falar
Minha experiência também mostra que não é necessário esperar a fluência para começar a usar o japonês.
Quando recebi aquele prazo de um mês, eu ainda sabia muito pouco. O que fiz foi trabalhar com o conhecimento disponível.
Estudei frases úteis. Observei o contexto. Preparei-me para situações concretas. Cometi erros, mas procurei continuar a conversa.
Muitas pessoas estudam durante anos e evitam falar por medo de errar. Esse medo acaba impedindo justamente a prática necessária para melhorar.
O japonês é um idioma difícil. O aprendizado exige tempo e constância. Entretanto, cada palavra aprendida pode produzir uma pequena mudança na vida cotidiana.
Compreender uma instrução sem ajuda, fazer uma pergunta na prefeitura, conversar com o professor de um filho ou explicar um problema no trabalho são conquistas importantes.
A fluência vem depois. A autonomia começa muito antes.
Uma decisão que mudou minha trajetória
Quando cheguei a Hirase, meu conhecimento de japonês não foi suficiente nem para uma simples conversa de boas-vindas.
Um mês depois, corria o risco de perder o emprego justamente porque não conseguia compreender as instruções. Naquele momento, aprender deixou de ser apenas um interesse e passou a ser uma necessidade.
O prazo que recebi foi assustador, mas também mudou minha postura.
Em vez de esperar que alguém traduzisse tudo para mim, comecei a buscar maneiras de compreender, responder e resolver os problemas por conta própria.
Anos depois, foi essa mesma disposição que abriu espaço para eu cuidar dos procedimentos dos estrangeiros, participar de reuniões com a direção e assumir funções de responsabilidade.
Por isso, sempre enfatizo a importância de aprender japonês para quem decide morar no Japão.
Não é necessário falar perfeitamente desde o início. Também não basta apenas decorar regras gramaticais ou concluir um curso. É preciso transformar o idioma em uma ferramenta para compreender o ambiente, construir relações e agir com independência.
Aprender japonês não mudou apenas minha maneira de conversar.
Mudou minha posição dentro das empresas, aumentou minhas oportunidades e transformou toda a minha trajetória profissional no Japão.